Entrevista: Solange Moraes fala sobre a produção de “A Pele Morta”, filme que abre o Festival de Brasília 2026

entrevista de João Paulo Barreto

“A Pele Morta” (2026), longa dirigido pelos irmãos Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres, e produzido por Solange Moraes, da Araçá Filmes, é o longa de abertura da 59ª edição do Festival de Brasília, o mais longevo evento cinematográfico brasileiro, que teve sua primeira edição ainda nos anos de trevas da ditadura militar – mesmo durante a perseguição do regime milico e endurecimento diante da decretação do Ato Inconstitucional 5 em 1968, o festival ainda foi realizado no ano seguinte (somente entre 1972 e 1974 o evento não aconteceu por conta da censura do governo Médici.

Este ano, mais precisamente no começo de agosto, após muitas incertezas, chegou-se a ser anunciado o cancelamento da edição 2026 não por causa da censura, mas, sim, por um atraso no repasse das verbas oriundas da Secretaria de Cultura do Distrito Federal. Porém, com o clamor popular e de diversos representantes das classes artísticas brasileiras, o governo do DF voltou atrás da decisão do cancelamento e providenciou o financiamento do evento.

“A Pele Morta” é um trabalho que homenageia o saudoso cineasta Geraldo Moraes, falecido em 2017, e tem seus filhos Denise e Bruno como diretores, bem como sua esposa, Sol Moraes, como produtora. O projeto coFmeçou a ser gestado em 2010, quando Daniel Tavares apresentou o roteiro ao casal Geraldo e Sol quando o diretor ministrava uma aula na Escuela Internacional de Cine y Televisión, em Cuba. “Ele dizia que aquilo era (Eduardo) Galeano. Que era ‘As Veias Abertas da América Latina’. Dizia que precisava fazer aquele filme”, comenta Sol Moraes, lembrando a contagiante energia do cineasta que planejava desvendar as fronteiras da América Latina ao dirigir aquele roteiro.

Na história, Saulo, um jovem rapper indígena de origem guarani-kaiowá (Luan Iturve) da região de Dourados, no Mato Grosso do Sul, após a morte do irmão, decide seguir ao lado de Justo (César Troncoso), um caminhoneiro solitário que segue em busca de trabalho no Paraguai após ser despejado da oficina mecânica que ocupava e onde Saulo tambémBrasilia trabalhava. No caminho, dão carona a Rosário (Ivana Gomez), adolescente que está em busca da sua irmã.

Nesse papo com o Scream & Yell, Sol Moares aprofunda o processo de criação do filme tanto pelo viés da produção quanto da direção.

No release do filme, há a informação de que o primeiro contato seu e de Geraldo com o roteiro escrito pelo Daniel Tavara para o filme foi na Escuela Internacional de Cine y Televisión (EICTV), em San Antonio de los Baños, Cuba. Como se deu esse processo?
Solange Moraes – Isso foi em 2010. Em dezembro irá fazer 16 anos. Olha que coisa! Como um filme demora para maturar. Geraldo fazia abertura da Polivalência da Escuela de Cuba. Ele fez isso durante quase seis anos. Ele ia para lá, fazia aquela aula inaugural, ficava 15 dias com os alunos que acabavam de ter sido selecionados. Alguns eram da Bahia, também, e do Nordeste. Geraldo fazia todo esse encontro, falava de cinema, estética, linguagem e narrativa. Depois, esses alunos iam para a Polivalência em um ano. Depois iam para os cursos específicos de fotografia, som etc. E Daniel já tinha sido aluno na Escuela de Cuba, que tem uma tradição de pegar os ex-alunos para as coordenações. Ele assistiu à aula de Geraldo. E Geraldo sempre falava da América Latina. Ele era muito apaixonado pela América Latina. E eu tinha uma mania de dizer que eu só conheceria outros países depois que eu conhecesse toda a América Latina. É fato que não, eu fui para outros, mas tinha isso. E aí quando Daniel acabou de assistir a aula, ele nos procurou e falou: “Olha, eu queria te passar um roteiro que eu acho que é a sua cara. Assisti à sua aula, vi você falando sobre a importância política da América Latina, e esse filme, esse projeto meu, ele fala da América Latina invisível. (Ele fala) Das veias abertas da América Latina”. Geraldo falou: “Quero ver”. Ficamos lá 25 dias com Geraldo dando aula e, à noite, ficávamos lendo o roteiro no quarto. O roteiro mudou bastante. Havia muito mais personagens. Geraldo era um homem de um cinema solitário. Quanto menos fala, mais ele gostava. No sexto dia, tínhamos acabado de ler o roteiro e Geraldo disse que ia fazer. Ele dizia que aquilo era (Eduardo) Galeano. que era “As Veias Abertas da América Latina” (livro lançando por Galeano em 1971). Dizia que precisava fazer aquele filme. Aí no outro dia chamamos Daniel para um jantar e dissemos a ele que não tinha nem o que pensar, que a gente queria fazer o filme. Nisso, ficamos de 2010 até 2015 só falando sobre o roteiro, mas Daniel achou que não estava pronto ainda, e Geraldo ficou também ali mexendo no roteiro. Em 2015, falei: “Não, eu não vou perguntar a ele. Vou inscrever em um edital de desenvolvimento. Acabou passando e disse a eles que já podiam trabalhar. Só que nessa época, Geraldo ficou doente e não fez uma viagem que ele faria com Daniel. Daniel foi sozinho, saiu de Dourados até o Salar do Uyuni (na Bolívia), que era onde o filme terminava, e veio para Salvador para fica com Geraldo uns vinte dias reescrevendo o roteiro. E foi bem na época que teve a queda política. A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, caiu. Caiu o governo do Paraguai. Caíram os governos de esquerda que estavam na liderança, como o de Dilma logo depois. E Geraldo começou a falar assim: “Não, esse roteiro não termina mais no Salar do Uyuni. Esse roteiro termina nos Paredões dos Andes”. A América Latina está sem saída. Está começando a ficar encurralada. Geraldo e Daniel colocaram o roteiro terminando nos Paredões dos Andes. Só que quando acabamos de prestar contas no edital de desenvolvimento, nem tinha acabado ainda e inscrevemos no Prodecine 5. E acabou ganhando! Falei: “Vamos rodar”. Geraldo preparou tudo com Daniel e comigo. Começamos a montar a equipe. Chegamos a convidar na época o Ricardo Darin, que faria o papel de Justo, e Geraldo ia ser o diretor. E aí Geraldo foi fazer comigo uma produção executiva de uma série em Mato Grosso, em Poconé. Lá, em um dia de folga, teve uma pescaria que ele foi com o Roberto Bonfim, e lá ele sofreu uma queda. Após isso, ele ficou vivo vinte dias. Durante esse período, ele não sentia nada. Fizemos ressonância no corpo inteiro e não acusou nada. E no 22º dia, ele desmaiou e morreu no dia 5 de agosto de 2017. O dinheiro do edital foi depositado na conta no dia 28, 13 dias depois da morte dele. E eu não consegui mais olhar para o filme. Armazenei. Eu tinha ganho o edital para três longas: “A Pele Morta” (2026), “Longe do Paraíso” (2022) e “Nina” (2021). (Mas) Eu não queria rodar. Quando olhava para a conta, para o dinheiro, lembrava que era tudo com o Geraldo e, agora, eu estava sozinha. Não queria. Tive um desespero e não fiz. Fiquei com depressão durante um ano. Então uma médica, Dra. Mônica, me disse: “Você precisa voltar. Se você for para um lado, você morre, se for para outro, você fica louca. Você tem que se cuidar”. E foi assim, muito pressionada, “tem que fazer, tem que fazer, tem que fazer”, que entrei em set. Convidei Denise (Moraes) e Bruno (Torres), que são filhos de Geraldo de casamentos anteriores: “Vamos nos juntar para fazer essa homenagem”. Eles toparam e a gente voltou para o set. Mas foi quando (Jair) Bolsonaro ganhou. Quando atravessamos a fronteira, o dólar subiu de R$2,75 para R$4,70. E todo mundo: “Volta, volta, volta, volta”. Eu falei: “Não tem como voltar não, gente. Vou ter que tomar um empréstimo e vou seguir”. E assim fiz. Rodamos o filme e só agora estamos chegando, oito / nove anos depois de Geraldo morrer, porque a Gullane entrou para finalizar. Porque nesse edital, você não pode captar recurso. Você tem que filmar com o que você ganhou. Se não fosse a Gullane entrando para fazer toda parte de imagem sem me cobrar nada, e a Eva Pereira que deu a edição do som, o filme não aconteceria. Contei essa história para você entender como a fatalidade vem no meio (de todo o processo). Houve uma morte no meio e essa morte nos tirou tudo o que tínhamos pensado e sonhado. Porque durante cinco anos, Geraldo e eu pensamos e desenhamos todo esse filme. Eu quero fazer um livro de tudo o que ele desenhou para o filme e que ele não fez, mas foi feito pelos seus filhos.

Cena de “A Pele Morta”

“A Pele Morta” traz algumas homenagens ao Geraldo Moraes, como o momento em que sua foto surge em cena. Como foi esse processo de saudá-lo dentro do longa?
Solange Moraes – O filme é cheio de camadas. Por exemplo, quando falei que queria usar as roupas de Geraldo no filme, a figurinista aceitou. Então, as camisas do Justo são as camisas de Geraldo. Aquela de listinha vermelha, meio rosa, era a camisa de Geraldo mais usava. Ele chegou a ir ao Mato Grosso com ela para ver as locações e tenho fotos dele, assim, em vários lugares com essa camisa. Ee vestia muito aquela camisa. E ela aparece no filme com o Saulo e termina com o Justo também usando. É a mesma camisa. Na minha cabeça, tínhamos que deixar o Geraldo aparecer na estrada. E Denise (Moraes) e Bruno (Fatumbi Torres) me ouviram, e, também, o Daniel (Tavares, roteirista). O Daniel participou de tudo, e continua participando. A gente queria deixar Geraldo na estrada. Porque, para Geraldo, o personagem principal era o Justo, um ex-preso político. E Geraldo também tinha sido um militante político, também chegou a ser preso. Então, o Justo era uma pessoa que a gente tinha na história como alguém que representava o Geraldo. E para os meninos, que já são mais jovens, e era um momento em que o Lula tinha sido eleito de novo e é quando alguns países iam recuperando a democracia, eles entendiam que tinha que colocar o personagem principal como sendo o indígena, e que ele tinha que voltar para a aldeia. Para lutar da sua aldeia para o mundo. Tanto é que ele volta cantando o rap dos guarani-kaiowá, que é em português e guarani, em homenagem aos Brô Mcs, que também são uma lenda lá de Dourados, e que termina sendo a música que fecha filme. Foi quando falamos com Bruno sobre fazermos essa homenagem a Geraldo colocando ele na tela. Bruno filmou com o pai a vida inteira, desde que nasceu. Ele é filho do segundo casamento de Geraldo. Esteve no set com o pai desde sempre. E Denise ocupa a cadeira que era de Geraldo na UNB – ele foi professor lá e coordenador do curso de Cinema. Denise é professora da UNB de Roteiro e Direção e é coordenadora do curso de Cinema. Então, os dois têm muito esse perfil do pai. Um no set e o outro no set e na academia. E os dois estão ali o tempo inteiro. E ficou linda a homenagem que eles fizeram. Porque a foto dele aparece na hora em que a menina está olhando a foto do pai. E aí entra um facho de luz. São muitos códigos. Geraldo está presente no filme de alguma forma com aquela foto e em luz, porque ele já tinha partido. Então, tínhamos essa crença, também. Em relação ao Justo, que é o e personagem do Cesar Troncoso, teve uma curiosidade. Depois que Geraldo morreu, os meninos começaram a pensar nos atores para os personagens. E eu sabia que seria outra direção. Quando apresentei a foto do Cesar Troncoso para eles, eles não tiveram dúvidas e foram direto com ele. Tanto o Luan (Iturve) quanto a Ivana (Gomez) foram selecionados através de teste de elenco. Eles passaram por vários testes na aldeia e em Concepción, no Paraguai. Testaram lá e cá e conseguiram achar essas duas pérolas, que são o Luan e a Ivana. Os dois estão estreando no filme. As homenagens a Geraldo são muito discretas e orgânicas. A mais explícita é essa em que ela fala: “Tá faltando o pai”. Que é uma palavra linda, né? “Tá faltando o pai”. Essa falta seria a direção de Geraldo do filme lá atrás. E eles conseguem colocar o pai presente com aquela foto. Aquele álbum é feito pela família. A família dele e a minha mandaram fotos. Todas as fotos que fomos encontrando, usamos para montar aquele álbum. E nos créditos, aparece lá: “Álbum de Família”. Foi todo mundo que foi contribuiu para criar essa homenagem a ele. É engraçado porque eles são bem diferentes, mas pensam cinema de forma muito igual. Acho que a estética deles ficou muito bonita na narrativa do filme. Duas pessoas, duas cabeças, e eles conseguiram. Uma estudando cinema, se formando em Paris, volta ao Brasil, torna-se coordenadora do curso de cinema. E o irmão que esteve no set com o pai a vida inteira. Lembro-me, inclusive, que o diretor de arte, Carlo Spatuzza, se emocionou quando contei a ele que seriam os dois filhos de Geraldo que iriam dirigir. Ele falou: “Sol, quero fazer esse filme de qualquer jeito”. E ele é um cara famoso no Paraguai. Ele fez aquele filme “7 Cajas” (2012), que é famosíssimo no Paraguai. Ele fez também “Las Herederas” (2018), um filmaço muito forte do Marcelo Martinessi. Então, é um tributo ao Geraldo o tempo inteiro. Um cara que foi secretário do audiovisual, um cara que filmou durante muitos anos e em quase todos os estados do Centro-Oeste. Faltou só o Mato Grosso do Sul, que ia ser com esse filme. Ele fez em Goiás, fez em Brasília, no Tocantins, depois ele vem para a Bahia. E ele falava assim: “Eu quero fazer esse filme para seguir para a América Latina, rodando a América Latina”. Só que não conseguiu fazer esse filme para a América Latina.

Entendi. O Geraldo tinha essa vontade de ter os contatos em todos os países latinos.
É porque, na verdade, ele era o presidente da Coalizão Brasileira para a Diversidade Cultural e eu a vice-presidente. Assumi a presidência agora. E a Coalizão Brasileira tem um link com 45 países no mundo. Então, todo ano, em janeiro, a gente vai para Paris para uma reunião de cúpula dos 45 países. Quando ele estava na pré produção, ele foi convidado para ser presidente da Coalizão das Américas. Só que ele não aceitou. Ele falou na época: “Não, eu quero primeiro rodar o filme, quero viver na América Latina e depois aceito o convite”. Ele não aceitou porque quis primeiro rodar o filme. A gente tem um desenho de distribuição, que nos falta dinheiro, que é muito forte. A gente tem o cine solar, que é um carro todo movido a energia solar. Já orçamos tudo e ficou em volta de R$ 300 mil, que é para a gente rodar as aldeias de Dourados até o Uruguai, fechando na cidade de Geraldo no Mato Grosso do Sul. Então, estou buscando dinheiro para isso agora. Continuo captando porque é um sonho nosso sair e dividir o filme pelas estradas e aldeias da América Latina. Filmamos na aldeia Guarani Kaiowá, mas quando fomos para o Paraguai, filmamos na estrada. Então, a gente queria um carro como se fosse o filme rodando a estrada. É uma distribuição de impacto que desenhei com ele. É um sonho meu e dele que não conseguimos, mas estou lutando para isso acontecer, buscando essa grana. Porque Geraldo era muito apaixonado pela América Latina. E pelo mundo, porque a Coalizão está em vários países. E ele foi em vários países. Com Gilberto Gil, mesmo, ele foi acompanhando para Convenção mais histórica do mundo, que é a Convenção do Unesco, de 2005. Geraldo estava lá no Canadá com Gilberto Gil. Com esse filme, ele queria fazer esse impacto na América Latina. Só que não conseguiu. Estou fazendo isso agora.

Sol Moraes no set de “A Pele Morta”

Quando conversei com o Eduardo Valente, diretor artístico do Festival de Brasília, ele me falou muito da simbologia de ter o filme estreando na sessão de abertura do evento por conta da ligação de Geraldo Moraes com a cidade e com o festival.
Sim! Brasília, para o Geraldo, foi uma cidade política e cultural. Ele saiu fugindo de Goiás na época, com os dois primeiros filhos, que é Márcio e Denise, que nasce lá e é uma das diretoras do “A Pele Morta”. Depois que a ditadura meio que dá uma esfriada, ele vem para Brasília, para a UNB. É uma cidade muito forte para Geraldo do ponto de vista familiar, também, porque ele construiu uma família lá. E político, porque ele vai para a UNB e ele fundou o CPC, ele criou canais de televisão para a UNB. Ou seja, ele é um cara muito político. E o Festival de Brasília é um festival político. Isso para mim foi fantástico. Digo que o cinema, ele traz presentes para a gente. Eu venho discutindo ao longo desses últimos quinze anos a importância da engenharia da produção. Eu ministro um curso, inclusive, sobre isso. Fiz questão de criar esse curso. Já ministrei esse curso na UNB em Brasília, no Pará, no Piauí, Amapá, Alagoas, Portugal e agora estou fazendo um fixo com uma escola de cinema da engenharia da produção. Porque esse filme traz esse exemplo. É um filme em que o roteiro nasce em Cuba. Então, você tem toda a parte de escrita na maior escola de cinema do mundo. Cuba é o pilar do cinema. Depois, vem para Salvador, e aqui ele participou de um edital e ficou em primeira suplência. Eu sou uma produtora baiana, mas o estado da Bahia não consegue entender que esse filme é baiano. Porque eles entendem que foi rodado em Mato Grosso e no Paraguai. Então, o dinheiro para sair de um edital da Bahia para um filme internacional, não é baiano. E isso com o CNPJ baiano, o dinheiro dos impostos ficam na Bahia, e eles não conseguem entender isso. Então, para a engenharia da produção, esse filme, para mim, como produtora, é crucial. Porque ele nasce em Cuba e vem para Bahia. Depois o Geraldo morre, a gente vai buscar dois diretores em Brasília, que são filhos deles, mas são diretores em Brasília. A gente vai para o Mato Grosso, onde montamos uma estrutura e empregamos várias pessoas de lá. A pesquisadora do filme é de Mato Grosso. O ator do filme, personagem principal, é um ator indígena do Mato Grosso. Aí a gente sai para o Paraguai e, de lá, temos o diretor de arte, que é o Carlos Spattuza, a atriz, que é a Ivana Gomez. Lá, fizemos os testes de elenco. Temos também Amanda (Nascimento), de Pernambuco, que é a diretora de produção internacional. Ela trabalhou com Camilo Cavalcante. E Camilo, na mesma época que Geraldo ganhou o edital, ele também estava filmando. E eles brincavam porque Camilo começava o filme dele em Salar do Uyuni e terminava em Dourados, Mato Grosso do Sul. E Geraldo começava em Dourados e terminava em Salar do Uyuni. E eles brincavam dizendo que iam se encontrar na estrada. Então, a gente tem uma diretora de produção de Pernambuco que já tinha rodado no Paraguai antes e que eu queria que ela viesse para cá para fazer essa expertise. Isso porque era um road movie e eu tinha que montar toda a estrutura na estrada. Olha quantos estados envolvidos. Fronteiras invisíveis dentro dessa produção. E depois a gente vai até a Filadélfia, que é um local que só vivem mennonitas (grupo cristão protestante que descende do movimento anabatista do século XVI) dentro da cidade. E eles não deixam nem calçar a cidade, porque eles acham que se calçar, a civilização chega e destrói essa cultura alemã deles dentro do Paraguai e Filadélfia. Então, foi um filme que eu contei com várias embaixadas. Contei com o exército, com o Ministério de Relações Internacionais.

Cena de “A Pele Morta”

Trata-se de um filme, então, que não somente tem essas fronteiras da América Latina em seu roteiro com, também, teve na sua produção muito dessa simbologia dessas fronteiras invisíveis.
Sim. E eu estou, inclusive, escrevendo um livro sobre as produções que não têm conhecimento das fronteiras da América Latina. E se você pensar, a gente não tem, a Ancine não tem acordo bilateral nem com o Paraguai e nem com a Bolívia. Os dois países que nós íamos filmar. Tanto que Justo vai para a Bolívia, mas a gente não atravessa a fronteira da Bolívia fisicamente. Atravessamos de forma imagética, imaginaria, quando o caminhão sai e ele está indo para a Bolívia. E a menina está indo para a Argentina em busca da irmã, porque ela não a acha no Paraguai e vai para a Argentina. Ou seja, é um filme que, fisicamente, foi rodado entre Brasil e Paraguai, mas imageticamente, foi rodado com vários estados do Brasil envolvidos. Pernambuco, Brasília, Bahia, Rio Grande do Sul, porque tem vários técnicos de Geraldo que nasceram no Rio Grande do Sul. Então, a gente fez essa homenagem. Temos pessoas do Paraguai envolvidas, pessoas da Bolívia, como a nossa coordenadora de produção que era boliviana. Íamos para a Bolívia, então, ela já estava ali dentro para seguir com a gente. Quando o filme muda a rota, ela permanece. E no Paraguai, estivemos com a maior produtora, a Sabaté Filmes, através da Isabela, só que ela ficou com medo. O tempo que eu levei com a Ancine para construir o contrato de co-execução foram três meses. Ela desistiu porque o tempo era muito longo e ela ficou com medo de se prejudicar. Porque não existe acordo bilateral Brasil-Uruguai. Então, a gente usa o acordo Ibero-americano, que é um acordo mais solto. Foi algo bem complicado. A troca de moedas, o câmbio. a gente tem um Banco do Brasil que fica em Pedro Juan Caballero/Ponta Porã. Metade do Banco do Brasil fica em Pedro Juan Caballero e metade fica em Ponta Porã. Então, o banco é o quê? Brasileiro ou paraguaio? Então, nós encontramos muitas fronteiras invisíveis. E aí eu vim entender que o Brasil, por falar português, ele está de costas para a América Latina. Glauber dizia muito isso. A gente tem que conhecer mais a América Latina. A gente não conhece a América Latina. Está todo mundo mirando para o Norte, todo mundo virando para a Europa. Então, na sequência de acabar o filme, comecei a buscar dinheiro tentando ver como é que eu ia fazer sem poder captar, porque o edital não permite. Fui para o SAPCINE, que é em Cali. Eles queriam apoiar, mas não não davam passagem aérea. Na Bahia entendem que o filme é do Mato Grosso porque não foi rodado de Salvador e, por isso, não tem como me dar passagem para eu finalizar o filme em Cali. Fui para o Ventana Sur com apoio da Ancine, que foi quem bancou a passagem. Levei o filme para lá, ele foi selecionado para o corte final. Em uma seleção com 400 filmes inscritos, eles só escolhem cinco E “A Pele Morta” foi selecionado em 2019. Lá, o diretor de Cannes nos disse que queria o filme quando estivesse finalizado. Ficamos tão eufóricos e felizes. Depois, Veneza, em 2019, pediu a cópia do filme para passar lá. Só que em 2020 veio a pandemia e a pessoa que fez o convite para quando o filme estivesse pronto acabou falecendo de Covid. Mas esse convite só veio porque viram o projeto no Ventana Sur, na Argentina, que é o maior encontro de mercado de cinema da America Latina. O ano passado aconteceu no Uruguai por conta do novo presidente argentino que é louco. Então, para mim, esse filme me deu a noção de América Latina. Foi por isso que eu aceitei ser presidente da Coalizão agora no lugar do meu marido. Eu não queria aceitar antes por achar que a Coalizão estava morta e tal, mas quando eu fui para o Ventana Sur, que eu já tinha passado pelo Uruguai e fui à Argentina, eu falei: “Não, a gente tem que fazer alguma coisa. Está errado. Temos que começar a conhecer essa América”. Esse ano eu estou voltando com o filme já pronto para venda no mercado. Está aberto as inscrições agora do Ventana Sur e eu espero que ele seja selecionado pra gente poder vender o filme nesse maior mercado da América Latina e honrar a história do filme, que é um trabalho totalmente latino-americano. E com várias participações, várias nuances. Então, para mim, como produtora, esse filme foi um doutorado em engenharia da produção. E fui fazendo tudo empiricamente, de luto. A minha pressão arterial saía de 9 para 19, saía de 19 para 17, e era uma loucura. Passei muito mal. E ainda estou no embate com a Ancine porque tenho que explica que eu também sou gente. Que eu sofri essa dor de perder o Geraldo, que veio uma pandemia e que eu só estou terminando o filme agora.

A produção, de fato, precisa ser mais valorizada.
Sim. E nós temos 62 cursos de cinema e nenhum é voltado especificamente para a produção. Todo mundo vai ser diretor. Então, é muito louco isso. O produtor é subestimado. Todo mundo acha que o produtor, no máximo, ele é um carregador de piano e não entende que o produtor é um pensador estratégico para não cair. Por exemplo, quando o dólar saiu aí de R$2,75 para R$4,70, todo mundo falou: “Volta”. Aí eu fiz a conta. Se eu voltasse para cá, eu ia gastar mais de R$ 100 mil, fora hospedagem e alimentação da equipe. Então, (o custo) iria ficar em torno de uns R$ 400 mil. Eu tomo esse empréstimo e acabo o filme. O empréstimo é meu, pessoa física, e estou pagando até hoje. Mas a Ancine não entende isso. Então, para mim a produção desse filme foi a mais desafiadora da minha vida. E também a mais fantástica, porque o que eu aprendi com ela não tem preço. E os meus enteados, tanto Denise quanto Bruno, foram muito cúmplices. Foram perfeitos. Eles conseguiram levar um filme para a tela que me deu orgulho. E o Daniel Tavares, que nunca saiu do meu lado, tentou falar com a VideoFilmes, tentou falar com a Gullane, ele tentou falar com todo mundo para eu conseguir terminar o filme. E eu consegui como? Eu tenho um festival aqui na Bahia chamado “Os Filmes que Eu Não Vi”. Trouxe o Fabiano Gullane para um Masterclass. Eu e o Fabiano somos amigos desde “Narradores de Javé” (2003), quando busquei recursos com ele. Em um almoço, ele me perguntou como estava minha vida e eu expliquei que estava com um filme parado. Ele disse: “Vamos terminar!”. Eu falei: “Você não está entendendo, eu não tenho um tostão”. Ele falou: ” Você não está entendendo. Eu estou dando a finalização do filme para você”. E finalizou o filme. Então, assim, eu nunca vou esquecer a Gullane. É uma das maiores produtoras do país, que teve todo esse olhar específico para um filme que estava parado e que não ia conseguir finalizar. Porque a Ancine não permite captar com Prodecine 5. E eu não sou uma mulher rica. Não tenho dinheiro, não tenho casa própria nem para vender. Então, tudo isso é muita informação que você deve estar tomando susto aí que eu vou despejando em você. Mas que eu acho que é necessário. Porque as pessoas têm que passar a enxergar a produção como estratégica para um filme. E o governo tem que entender que o filme ele é baiano, porque o CNPJ é baiano, o produtor é baiano e é quem faz esse filme acontecer. Sem um produtor, o filme não sai do papel. E isso é muito importante entender. Digo que o cinema é uma orquestra. Se ela desafina, ela não anda. Se eu não tiver um diretor, eu não filmo. Se eu não tiver roteirista, eu não tenho história. Se eu não tiver os departamentos, eu não monto a estética narrativa e a linguagem do filme. O som, esse é um filme de som! É o Bresson, porque (também) é um filme de silêncio. Ele tem quatro músicas específicas no filme. O resto é silêncio. E o Bresson dizia isso: “Som também é silêncio”. Porque é no silêncio que se constrói as narrativas. Então, assim, esse filme, para mim, ele foi uma pós-graduação de produção, sabe? Um doutorado mesmo, vamos dizer assim, porque eu mergulhei tanto nos estudos. Estou com uma mala aqui no meu quarto só com notas fiscais, entendendo tudo por estado, por língua, por várias nuances para poder montar esse filme. Ainda quero chegar na América Latina, temos dinheiro? Não. (risos) (Mas) Vou atrás. Vamos tentar.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.

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